terça-feira, 25 de agosto de 2015

O Câncer a Tristeza e a Depressão - Quando descobri que não sou uma Guerreira


As pessoas que recebem um diagnóstico de câncer passam por vários níveis de estresse e angústia emocional. O medo da morte, a interrupção de planos futuros, as mudanças físicas e psíquicas, as mudanças do papel social e do estilo de vida, as preocupações financeiras e legais são assuntos importantes para qualquer pessoa com câncer. Entretanto, nem todas as pessoas com diagnóstico de câncer sofrem uma depressão grave.
Quando descobri meu câncer, já me vi morta. E com essa visão na cabeça, começaram minhas pirações...como assim, vou morrer? E minha vida, meus planos, minhas viagens, meu filho, meu marido, e meus cachorrinhos? Como assim câncer ?!!
Daí, passei a viver um "falsa alegria", uma imagem mentirosa de uma "suposta guerreira", criada pelas pessoas que imaginavam que eu era. 
Quem, eu? Uma guerreira? 
Passei a odiar essa palavra, este estereótipo criado por não sei quem, vindo não sei de onde, mas que a todo momento pipocava minha vida, minha "timeline", minhas mensagens, meus whatsapps, enfim, pessoas me chamando de guerreira a todo instante.
Mas o que é ser uma guerreira, eu pensava com meus botões...
Uma mulher guerreira, é aquela que está a frente dos seus próprios limites... é aquela que não mede esforços físicos para trabalhar, é aquela que mesmo diante das dificuldades consegue manter a serenidade, a força, a fé. É também vaidosa, jamais deixando baixar a auto estima. Mulher Guerreira, é aquela que é uma mulher batalhadora, que corre atrás dos seus ideais, não desiste fácil, e ainda que tudo diga não, ela permanece ali, firme e forte, até o fim. Uma guerreira é aquela mulher que se desdobra para resolver as coisas, é aquela mulher atual, que consegue ser mãe, dona de casa, mulher, trabalhadora e tudo isso sem perder o charme e o glamour. A mulher guerreira não enxerga sua vida como um fardo sacrificante e que tudo precisa ser difícil, mas sim, vê a sua vida como uma grande oportunidade, desafios a serem vencidos, resultados a serem alcançados. Ela entra na batalha para vencer, com foco, autoconfiança, atitude e constantemente busca sua força interior para enfrentar os “inimigos”, os obstáculos, as frustrações e as decepções.
Ou seja, seria eu Val Bernardo, essa mulher guerreira que iria enfrentar o câncer, mutilar minha mama, fazer quimioterapia, radioterapia, sofrer todas as reações possíveis e impossíveis e além de tudo perder meus cabelos?
Vieram longas horas de choro, dias de imensa solidão mesmo rodeada de amigos e familiares, vieram também dias de imensa dor e tristeza, dor na alma, e a tristeza da forma mais profunda e absurda que me consumiam dia a dia.
Para cada palavra de incentivo eu tinha dois pensamentos negativos, nenhuma expectativa de cura, nenhuma esperança, minha fé tinha simplesmente adormecido. Tudo que eu lia e absorvia era negativo, tudo me soava da pior maneira, e a cada frase em que entrava "câncer agressivo", eu ia me consumindo e me auto punindo. Me sentia culpada, o que eu tinha comido, bebido, usado, falado, magoado, que me causou esse mal? Por que fui castigada? O que fiz de errado?
Não. Eu não era uma guerreira, eu era só uma pessoa doente, doente do corpo e da alma, eu precisava desacelerar esses pensamentos negativos, eu precisava reagir, porque era muita tristeza pra uma pessoa só, era muita negatividade e falta de energia, e sim, eu estava deprimida.
Não tomei remédio algum que me levantasse da cama, pelo contrário, optei por dormir, desliguei os telefones, cancelei todos os compromissos, me desliguei do mundo e das pessoas, meu universo era minha cama e meus cachorrinhos.
Eu achava que não ia mais sair desse status "vou morrer mesmo" então nem tô ai pra nada, meus cabelos ficaram ralos e fracos, meu corpo não correspondia da forma que era esperada, passei a máquina no cabelo mas não fiquei careca, deixei a natureza agir sozinha, apareceu mais um tumor, e comuniquei a todos que não queria mais fazer quimioterapia.
Mas como? Ninguém entendia minha reação, não é assim que uma guerreira reage, não é desse jeito que iria ficar. Logo, sobre pressão, eu retornara a quimio, mas a tristeza estava ali, ela me abraçava noite e dia, vinha como um sussurro me pedindo pra desistir.
E minha vontade era desistir...eu estava perdida, o câncer é cruel, ardiloso, ele se rasteja por nosso corpo e se você não reagir e correr ele te alcança e te consome.
Continuo não sendo "a tal" guerreira que o povo que chamo de "cancerígeno" adotou, e quando eu falo "povo cancerígeno" não é com raiva, preconceito, é com o carinho que encontrei pra dizer que a gente tem câncer sim e que é um saco ter essa doença ruim, pode ser câncer na ponta do dedo tipo A, B, C, D, não importa, é câncer e é ruim tê-lo por perto. Enfim, já que não sou essa guerreira esperada, tomei forma de controle de vídeo game e me conectei, se eu melhorei? Conto em outro post. :-)

11 comentários:

Marta disse...

Parabéns pelo post Valéria!

Marta disse...

Parabéns pelo post Valéria!

Luiz Jeronimo disse...

Muito bom Val , vc escreve muito bem hein!?!?Continua ass Val , sei que o final dessa história vai ser incrivelmente feliz ...te amo

Curta 80 disse...

Val , tai um talento. .. escrever. Mergulhe em si mesma e descobrirá coisas incríveis. Vc é única. Humana acima de tudo, de carne e osso, tem sensibilidade e fala com o coração. Esperando o próximo capítulo. Bjos

Angelica Oliveira disse...

Adorei o blog.....

Rose disse...

que desabafo isto é bom para vc minha linda escreva bastante mesmo vou aguardar seu proximo <3 <3 <3 te amo bjkas mil

Gê Simões disse...

Força Val!
Estou em oraçoes pela rsua recuperação fisica e da alma!

Bjs

Alexandre Fernandes disse...

Força que Deus restabeleça sua saúde.

Mariana cunha da disse...

Val
texto maravilhoso.... vc devia escrever mais vezes.. muito bom seu texto. Muito Bom vc desabafar e muito bom vc continuar caminhando... amo vc... demais...

Tamiris Bockmann disse...

Não sei nem o que dizer... As vezes temos que nos permitir sentir o que estamos sentindo. Tem uma música da Jessie J que diz que é OK não estar bem(Who You Are). Ouvia muito ela em um momento muito difícil na minha vida. E foi bom poder sentir o que eu senti, a sociedade é muito louca, para ela só os sentimentos bons podem ser vividos. Te desejo a cura de tudo! Bjusss

Aline Lacroc disse...

É muito raro ver as pessoas serem tão sinceras assim.
Espero que você saia dessa o mais rápido possível e se recupere.
Beijos